O que são as histórias sociais e como utilizá-las?

Ir ao dentista, começar em uma escola nova, esperar a vez durante uma brincadeira ou compreender o que acontecerá em uma festa de aniversário pode parecer simples para alguns. Para outras crianças, porém, situações novas ou que envolvem regras sociais podem gerar dúvidas, insegurança e ansiedade.

As histórias sociais são um recurso que pode ajudar a tornar determinadas situações mais claras e previsíveis. Elas apresentam informações de maneira estruturada e adaptada à compreensão da criança, ajudando-a a entender contextos, comportamentos, acontecimentos e possibilidades de resposta.

Muito utilizadas no acompanhamento de pessoas autistas, as histórias sociais devem ser individualizadas e construídas de acordo com as necessidades de cada pessoa.

O que são histórias sociais?

As histórias sociais são pequenas narrativas elaboradas para explicar uma situação específica de maneira clara, objetiva e compreensível.

Elas podem apresentar informações como: onde determinada situação acontecerá, quem estará presente, o que poderá acontecer, como a criança poderá se sentir e quais alternativas terá diante daquele contexto.

Para facilitar a compreensão, uma história pode utilizar:

  • frases curtas e objetivas;
  • fotografias;
  • desenhos;
  • símbolos ou outros recursos visuais;
  • situações familiares para a criança.

Mais do que dizer o que a criança “deve fazer”, o objetivo é oferecer informações que aumentem sua compreensão e previsibilidade.

Para que servem as histórias sociais?

As histórias sociais podem ser utilizadas em diferentes situações do cotidiano.

Uma criança que fará sua primeira consulta odontológica, por exemplo, pode receber antecipadamente uma história mostrando que chegará ao consultório, aguardará na recepção, conhecerá o dentista e poderá sentar-se na cadeira para que seus dentes sejam examinados.

O recurso também pode ser utilizado para trabalhar situações como:

  • início das aulas;
  • mudança de professor;
  • consultas e exames;
  • viagens;
  • festas e eventos;
  • interação com outras crianças;
  • espera e turnos;
  • mudanças na rotina;
  • atividades de autocuidado.

Ao saber melhor o que esperar, a criança pode chegar à experiência com mais informações e recursos para compreendê-la.

Histórias sociais são apenas para crianças autistas?

As histórias sociais são frequentemente associadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), já que podem ser úteis para pessoas que se beneficiam de informações explícitas e maior previsibilidade.

No entanto, o recurso pode ser considerado para outras crianças quando fizer sentido para suas necessidades individuais.

O mais importante é evitar a ideia de que toda criança autista precisa necessariamente utilizar histórias sociais ou que o mesmo material funcionará para todas. A escolha da estratégia deve considerar as características, habilidades e necessidades de cada pessoa.

Como utilizar histórias sociais?

Para que o recurso seja significativo, alguns cuidados são importantes.

1. Escolha uma situação específica

Evite histórias excessivamente amplas. Se a dificuldade está relacionada à ida ao dentista, por exemplo, a história pode ser construída especificamente sobre essa experiência.

2. Utilize uma linguagem acessível

O texto deve estar adequado à idade e à compreensão da criança. Frases simples e informações concretas podem facilitar o entendimento.

3. Personalize o conteúdo

Sempre que possível, utilize elementos familiares. Fotografias da escola, do consultório, de familiares ou de objetos que farão parte da situação podem tornar o conteúdo mais significativo.

4. Apresente com antecedência

Quando a história estiver relacionada a uma situação futura, ela pode ser apresentada antes do acontecimento e retomada conforme a necessidade da criança.

5. Não transforme a história em uma lista de ordens

Esse cuidado é fundamental. As histórias sociais não devem funcionar simplesmente como uma maneira de exigir obediência.

Em vez de:

“Eu não posso chorar no dentista.”

Uma construção mais informativa poderia explicar:

“Algumas pessoas ficam preocupadas quando vão ao dentista. Se eu estiver desconfortável, posso avisar.”

Assim, o recurso oferece informação e possibilidades de comunicação, em vez de invalidar a experiência da criança.

A importância da individualização

Uma boa história social precisa considerar a pessoa para quem foi criada.

Duas crianças podem apresentar dificuldades diante da mesma situação por razões completamente diferentes. Enquanto uma pode não compreender o que acontecerá, outra pode ter preocupações relacionadas aos estímulos sensoriais daquele ambiente.

Por isso, compreender por que determinada situação é desafiadora é tão importante quanto produzir a história.

Profissionais e familiares podem trabalhar juntos para identificar as necessidades da criança e decidir quando esse recurso é adequado.

Histórias sociais como apoio à autonomia

Quando utilizadas de maneira individualizada e respeitosa, as histórias sociais podem ajudar a criança a compreender situações, antecipar acontecimentos e conhecer possibilidades para lidar com diferentes experiências.

Na Clínica Entrelaços, acreditamos que oferecer previsibilidade não significa controlar cada comportamento da criança. Significa disponibilizar informações e recursos que possam ampliar sua compreensão, comunicação, participação e autonomia. Cada criança percebe e interpreta o mundo de uma maneira particular. Às vezes, tornar esse mundo um pouco mais previsível pode fazer uma grande diferença.

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